9.11.09

Era uma vez XXXVII -
O torturador light


Nos anos 60, enquanto cursava engenharia eletrônica na Politécnica – USP, morei com minha mãe em uma pacata vila das muitas que havia na Vila Olímpia, em São Paulo.
Na mesma vila morava um de meus professores na Poli, Roberto Marconato.
Naquela época, no curso de eletrônica, a relação entre alunos e professores era quase sempre muito estreita e informal. Os professores eram quase todos bastante jovens, pouco mais velhos que nós alunos. Além disso, vivia-se a transição dos circuitos baseados em válvulas para os compostos de transistores. Os professores haviam sido formados em válvulas. Quanto aos circuitos com transistores eles os estavam estudando junto conosco. Vai daí, nosso relacionamento era de muita transparência e mesmo de amizade.
Acrescente-se a isso o fato de morarmos na mesma vila e ter-se-á uma boa noção de meu relacionamento com Roberto Marconato. Eu estava no início dos vinte, ele devia estar com pouco mais de trinta anos. Já tinha uns dois filhos, frutos do casamento ainda recente.
Era comum, nos finais de semana, que eu conversasse longamente com ele na ruela em que vivíamos, enquanto ele vigiava os filhos pequenos a brincar.

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Início de agosto de 1.971. Estou na OBAN. A parte mais pesada da tortura já passou. Passo os dias e noites em interrogatórios mesclados a pancadas com pedaços de paus e a choques elétricos com aquelas maquininhas a manivela com as quais nossos algozes se distraem. Mas as pauladas já são mais esparsas e menos contundentes. Os choques são dados nas mãos e parecem servir apenas para lembrar que o tormento não terminou.
Certo dia, início de noite, sou chamado para interrogatório. Aguarda-me um sujeito mais ou menos da minha altura, pouco mais velho que eu, magro. Ainda não o tinha visto por lá.
É certo que o sono me atormenta, a vista está um tanto embaçada. Mas ao encará-lo me espanto: parece o Marconato. Parece não. É.

Procuro controlar minha reação. Não. Não é ele. Mas só pode ser um irmão gêmeo. Tenho medo de demonstrar que de algum modo o conheço. Isso pode não ser bom para mim. Os torturadores usam pseudônimos e não querem ser identificados de nenhum modo por nós. Por motivos óbvios.

Ele amarra cada um dos dois pólos da maquininha às minhas mãos. E saímos pelos corredores do DOI-CODI à procura de uma sala livre para começar o interrogatório. O ambiente é relativamente calmo. O quanto pode ser calmo um local de torturas. Já não há presos novos, sujeitos a torturas mais agudas. Há a rotina macabra de interrogatórios apimentados por pequenas maldades. Já não há quase nada a extrair desses depoimentos. Mas eles, os homens do major Ulstra, precisam cumprir sua jornada de trabalho.

Ao longo de nossa caminhada, o sujeitinho gira esporadicamente e sem muita convicção a manivela do pequeno dínamo. Os choques são leves e me causam pouco sofrimento. Mas já estou exausto pela falta de repouso, pela tensão constante e choramingo. Sim. Choramingo. Isso parece diverti-lo. Minha humilhação o satisfaz.

Uma vez instalados em uma pequena sala, já sentados, ele deixa a maquininha de lado e inicia as perguntas. Respondo com voz cansada. Tudo é muito repetitivo. Ele não tem mais o que perguntar e insiste em perguntas já repisadas por outros carrascos.

Mais tarde, já no Presídio Tiradentes, durante a visita de sábado, minha mãe me contou que enquanto eu estava na OBAN ela recebera a visita da esposa do Marconato, que foi até nossa casa para confortá-la. Durante a conversa, como minha mãe se dissesse aflita por não ter notícias minhas, a visitante lhe falou que ficasse calma, porque eu estava bem e havia quem estivesse cuidando para que eu não sofresse (não sei se as palavras foram exatamente essas, mas foi algo por aí). Fiquei na dúvida: ela teria realmente informações de dentro da OBAN ou estaria apenas querendo acalmar minha mãe?

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Janeiro de 1.973. Acabo de sair do presídio em liberdade condicional. Em um de meus primeiros finais de semana fora da tranca, meu sogro – para testar minha reação – nos convida, a minha mulher e a mim, para almoçarmos no Círculo Militar, do qual é sócio.
Aceitamos. Aliás, apesar de não nutrir nenhuma simpatia por exércitos, nunca tive aversão a militares. Ao contrário, durante meu curso de engenharia tive três colegas oficiais da Marinha que eram exemplos de bom caráter e excelentes alunos. Tenho um tio que se reformou como coronel da Aeronáutica e com o qual tenho excelentes relações e pelo qual nutro muito carinho. Nesse mesmo ano de 73 eu viria a dar aulas para o 3° ano de Engenharia Naval, na Poli. Os melhores alunos da turma eram os dez oficiais da Marinha que se valiam do convênio existente entre ela e a Escola Politécnica.

É certo que as Forças Armadas moldam seus membros de um modo que não me agrada. Mas engenheiros também têm seus cacoetes, assim como advogados etc etc.

Também é verdade que esse meu tio que referi acima teve de abrir mão de seu sonho de ser aviador e contentar-se com a Intendência (área administrativa) pois, na época, a Aeronáutica não admitia aviadores negros. E o preconceito não se restringia ao aspecto racial. Tenho um primo loiro que também nutria o desejo de ser aviador e se viu impedido de realizá-lo porque seu rosto era bastante marcado pelos resquícios das muitas espinhas que o atormentaram por toda a adolescência. Ao contrário do tio de que falei, ele recusou a Intendência e foi cursar engenharia fora da Aeronáutica.

Faço votos que todos esses preconceitos pertençam ao passado das Forças Armadas. E voltemos a nosso almoço dominical no Círculo Militar.

O almoço transcorreu sem nenhuma ocorrência especial. Ao final, estávamos caminhando para a saída do clube quando encontro com meu ex-professor Roberto Marconato, que chega com mulher e filhos.

Pergunto se ele costuma freqüentar o Círculo Militar e ele responde que sim, que seu irmão é oficial do Exército.

Despeço-me dele e de sua esposa. Nunca mais o vi.

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O presumível irmão dele foi – é verdade – um torturador light. Pelo menos comigo.
Claro que Roberto Marconato, meu ex-professor, não pode ser minimamente incriminado pelas escolhas do irmão, mesmo que o torturador seja seu irmão gêmeo.

Quanto ao torturador, me agrada crer que ele seja atualmente – assim como todos os torturadores – um indivíduo atormentado pelo próprio passado.

Gostaria muito de reencontrar Roberto Marconato para tirar a limpo a dúvida. Caso isso viesse a ocorrer, começaria por perguntar se seu irmão oficial do Exército não apresentou, lá na década de 70, indícios de que seu salário tenha repentinamente e por um bom tempo aumentado coisa de três a quatro vezes.

Era, pouco mais pouco menos, a recompensa recebida pelos militares torturadores. E a quase totalidade estava lá graças a isso.

8.11.09

Sonho e memória


Há pesadelos que parecem remeter à morte. Contudo, se é verdade que nenhum indivíduo passou pela experiência final (e isso é verdadeiro por tautológico), pesadelos assim denotam, isso sim, sentimentos e sensações ligados à expectativa da morte.
Se tenho medo de morrer, lido com esse sentimento também por meio de pesadelos.

Digo isso até mesmo por não ser daqueles que acreditam terem os sonhos um possível caráter de premonição. Portanto, a meu ver, se sonhos apontam para eventos futuros (a morte é um deles), só posso entender que os significados vinculados a esses sonhos referem-se a vivências atuais ou passadas minhas, provocadas pela espera – temerosa ou não – do aguardado evento.

O mesmo não deve ser dito a respeito de sonhos cujo conteúdo manifesto se desdobra em interpretações que remetem a eventos pretéritos.

Já há algum tempo que venho tendo pesadelos cujo conteúdo manifesto varia, mas sempre em torno de um mesmo esquema: preciso chegar a algum lugar, ou ir ao encontro de alguém. O caminho percorrido apresenta complicações crescentes que me impedem de chegar ao destino. São escadas que surgem e que me levam a lugar algum, portas que se abrem e me remetem a situações diversionistas etc etc.

Pois esta noite, enveredei por um desses pesadelos em uma versão erótica. Estou em companhia de uma mulher com a qual quero fazer sexo. Estamos em um infindável edifício, dotado de vários blocos, cada um deles pleno de corredores e muitas salas. Vamos em busca de alguma sala vazia onde seja possível consumar o desejo.

Nos moldes de meu recorrente pesadelo da busca infindável, não conseguimos encontrar local propício. Um sentimento aliado a tal conteúdo manifesto é o da angústia da procura frustrada. Outro, o de persistência incansável.

De repente, em um corte próprio do mundo onírico, vejo-me – mais do que me ver, sinto-me – entre as pernas muito alvas da mulher, agito as pernas e percebo estar coberto de intenso suor. Mas não. É mesmo líquido amniótico.

Essa última constatação já fará parte da vigília? É provável. Sei que, ao acordar, a interpretação da cena como nascimento impôs-se de modo irresistível. Respirei fundo, com indizível prazer e esse ar foi o primeiro a freqüentar meus pulmões.

Cantor e a teoria dos conjuntos trouxeram o conceito de infinito atual, em contraste com o familiar infinito potencial. Este último pode ser descrito pela brincadeira infantil de pedir que alguém diga um número qualquer e logo vencê-lo com número maior. O infinito potencial é uma possibilidade, com o perdão do truísmo. O infinito atual não. Ele é. Quando menciono o conjunto dos números naturais, essa infinidade desaba sobre mim com realidade equivalente à de um paralelepípedo. O infinito potencial tende a um sem fim. O atual é sem fim.

Essa digressão vem a propósito de duas considerações:
A primeira diz respeito ao conteúdo latente dos sonhos: ele nos é dado como conjunto de interpretações, conjunto infinito, até onde se pode vislumbrar. Nesse sentido, teórico apenas, trata-se de infinito atual.
Já nossa exploração desse tesouro onírico infinito se dá nos moldes de infinito potencial. As interpretações se sucedem, indefinidamente. Isso não nos permite concluir que todas sejam de igual peso. Há hierarquia nesse universo. Há as que se mostram mais significativas.

A segunda consideração refere-se àquilo que senti ao vivenciar – de modo onírico mas não menos real – o momento de meu parto.
É como se minha vida, até então algo que se desdobrava com o passar do tempo e na qual cada momento era “vencido” pelo momento seguinte, em direção ao infinito (outro nome da morte), é como se minha vida, repito, acabasse por se ter tornado uma infinitude atual, embora só aplicável ao passado.

De qualquer modo, algo se completou. Até então, a lembrança mais remota que me pertencia era uma cena de festa junina, rua Pego Junior, Vila Mathias, Santos, seu Raul e muitos meninos a preparar a soltura de um enorme balão. Naquela época isso não era considerado um ato perigoso (e talvez não o fosse, mesmo). Eu estou sentado no meio fio, pés na sarjeta seca, a observar tudo. Afinal, era o que me permitiam, na insignificância de meus 3 ou 4 anos.

De hoje em diante, tenho lembrança mais remota. O mundo onírico quis me presentear com a vivência de meu nascimento. E essa interpretação se impôs como principal. Mais: única. Tal qual a profunda tomada de ar que dei ao acordar e que me uniu àquele recém-nascido que lutou mais de duas horas para vir à luz.

4.11.09

Planejamento astral


Deu na Mônica Bérgamo, hoje (aqui, para assinantes UOL ou Folha):

ALTO ASTRAL
A namorada do ex-deputado José Dirceu, Evanise, consultou sua astróloga para saber qual era o melhor lugar para comemorar seu aniversário. Ouviu a recomendação de embarcar para Machu Picchu, no Peru. O casal passou o feriado no hotel Sanctuary Lodge, da cadeia Orient Express, que fica em frente às ruínas do lugar.


Dirceu, homem forte da campanha de Lula a presidente em 2.002, depois ministro da Casa Civil (e, virtualmente, primeiro ministro) até ser derrubado sob acusação de ser o líder do Mensalão, tsunami político que os petistas negam que tenha existido, foi comemorar o aniversário da namorada seguindo a orientação da astróloga da dita cuja. Ao voltar, deve ter retomado sua atual tarefa de influente articulador da candidatura Dilma Rousseff.

Começo a entender a metodologia de planejamento do governo.

3.11.09


Se Luchino Visconti fizesse "Morte em Veneza" nos dias de hoje, o nome do filme teria de ser "A Morte do Pedófilo".

29.10.09

Ufa!


Hoje fui fazer um enxerto ósseo pra poder implantar um dente no lugar do molar que perdi em novembro do ano passado.


Como deixei passar muito tempo (quase um ano) entre tirar o dente e querer implantar outro, o osso foi sumindo.
Foi preciso enxertar pó de osso pra que meu osso resolva crescer e aparecer.

Não sei se é preciso dizer: eu estava simplesmente apavorado.
Nos últimos dias deitava e ficava pensando como seria a cirurgia. O dentista com uma furadeira, abrindo espaço em meu osso para poder enxertar o pó milagroso.
O osso rangendo. Talvez se rompendo irremediavelmente.

Já me via com o rosto partido em pedaços irreconciliáveis. Iria – com certeza – tornar-me um daqueles seres das pinturas cubistas.
Um quadro de Picasso, ambulante.

Enfim, eis-me aqui, enxertado de modo suave.

Tá certo que está tudo dolorido, desse lado esquerdo do rosto. Mas nada que um analgésico não resolva.

Agora vou dormir. Sem pensar em furadeiras.

28.10.09

A inescapável velhice


A Folha de S.Paulo publica hoje, no caderno Informática, matéria sob o título A Morte do E-mail (aqui, para assinantes Folha ou UOL).

Em resumo, informa que a garotada já migrou para outras formas de comunicação. E-mail – agora – é coisa de velho.

A velharada que – à custa de muito esforço – conseguiu abandonar o cartão postal e passou a usar correio eletrônico, está de novo compelida a lutar: o Twitter e os Facebooks da vida a esperam.

A corrida em busca da juventude perdida é maratona sem linha de chegada.

26.10.09

Das vantagens da mediocridade


Ontem, ao assistir a uma entrevista de João Carlos Martins, me ocorreu uma perplexidade:

De alguma forma, parece que o destino aproveita acidentes na vida das pessoas para retirar delas o que elas possuem de excepcional.

Vejam, também, o caso de Osmar Santos. Grande narrador esportivo, ao sofrer um acidente automobilístico perdeu justamente a voz.

Há alguns anos, no dia de meu aniversário, uma de minhas irmãs, possuidora de memória fantástica, teve uma crise ao que parece derivada de um pico de pressão arterial e perdeu – ainda bem que por poucos dias – justamente a memória.

Por que Osmar Santos não perdeu alguns movimentos da mão? João Carlos Martins teria perdido a voz e ambos continuariam exercendo seus dons maiores.

De tudo isso resulta que desse mal não irei padecer. Não possuo dons excepcionais. Talvez essa seja uma das virtudes da mediocridade.

25.10.09

PRO CURA


PROCURE NÃO DESEJAR O IMPOSSÍVEL.
PROCURE NÃO DESEJAR.
PROCURE NÃO.

PROCURE.

O IMPOSSÍVEL.
O IMPOSSÍVEL DESEJAR.
O IMPOSSÍVEL DESEJAR NÃO PROCURE.

23.10.09

A Doga é um gênio


A modéstia quase me impede.
Mas lá vai.
Vejam minha Doga a trabalhar em três computadores simultaneamente:

CLIQUE PARA AMPLIAR

Uma dica (talvez) útil


Sempre me vali de legendas nas fotos que coloco aqui no Bazar. Coisas como mostrado abaixo:

Olha a legenda aqui também
Você coloca o mouse/(rato) sobre a foto e pronto: aparece a legenda por alguns instantes.
No meu desktop começou a acontecer que as legendas não apareciam. E isso só ocorria em meu blog. Se visitava outro blog lá estavam as legendas nas fotos.
Abri meu blog em outros computadores e, neles, as legendas reapareciam.

Terminei por descobrir, depois de alguma procura, que tudo pode ser resolvido com um clique.
Acontece que meu desktop está com o Internet Explorer 8 (IE8). Nele, há um botão justamente para adequar aos padrões do IE8 páginas construídas em versões anteriores:

CLIQUE PARA AMPLIAR
Foi só clicar nele e as legendas voltaram a aparecer.

Portanto, se você usa o IE8 (para verificar qual sua versão do Internet Explorer, clique em Ajuda (Help), lá em cima, na barra de menus, e em Sobre o Internet Explorer (about Internet Explorer)) e não vê legendas quando pára o mouse/(rato) sobre fotos, clique naquele botão lá do alto, indicado na figura acima.

É outono. Portanto...


Época de castanhas e de níscaros, na minha terra.

ao clicar, chega à origem da foto
ao clicar, chega à origem da foto

ATUALIZAÇÃO (26/10/2009): Como alguns amigos lembraram a forma "míscaros", registro (ou registo, como se usa em Portugal) que ambas são possíveis.

18.10.09

Cosmogonias


Em La Creación y P.H.Gosse (Otras inquisiciones, pág. 37, Emecé Editores, 1ª edição, 1.960), Jorge Luis Borges discorre sobre a relação entre Criação e o problema do tempo.
Não vou, é claro, reproduzir aqui o texto de Borges.
É preciso, e delicioso, lê-lo.
Borges começa pela aparentemente desimportante questão de se Adão tinha umbigo para enveredar pela causalidade temporal e sua incompatibilidade com a idéia de Criação.
Incompatibilidade que não existe, ao menos na visão de Gosse.
Gosse aceita que o estado do universo em um determinado instante é conseqüência de seu estado em um instante imediatamente anterior.
Assim, ao estado f sucede o estado g, a este sucede o estado h etc etc. Mas antes do, digamos, estado r, uma catástrofe divina pode aniquilar o planeta.
Como diz Borges:
O futuro é inevitável, preciso, mas pode não acontecer.
Da mesma forma, esse tempo causal, infinito para diante e para trás, pode ter sido interrompido em algum ponto no passado pelo evento da Criação.
Mais uma vez Borges (explicando Gosse):
O primeiro instante do tempo coincide com o instante da Criação, como dita Santo Agostinho, mas esse instante comporta não só um infinito futuro mas também um infinito passado. Um passado hipotético, é claro, mas minucioso e fatal. Surge Adão e seus dentes e esqueleto contam 33 anos; surge Adão e ostenta um umbigo, ainda que nenhum cordão umbilical o tenha atado a uma mãe.

Ao final do texto, Borges menciona, ainda, a versão moderna dessas idéias de Gosse, versão proveniente da imaginação de Bertrand Russell:
O planeta foi criado há poucos minutos, provido de uma humanidade que “recorda” um passado ilusório.

Quanto a mim, sempre me intrigou a aparente contradição entre um deus onipotente, onisciente, onipresente, e um deus que zela por minhas dores de cabeça ou me ajuda a marcar um gol em uma partida de futebol entre solteiros e casados.

Talvez da aflição oriunda dessa antinomia, surgiu minha versão da Criação:

Na Cidade dos Deuses, em uma casa assobradada de um bairro da periferia, no amplo quintal dotado de algumas árvores frutíferas, um pé de girassol e algumas galinhas à procura de minhocas, dois deusezinhos brincam a brincadeira predileta da maioria da gurizada da cidade: a criação de mundos.

E bolam um mundo cheio de galáxias. Chegam a detalhar uma Via Láctea, com miríades de estrelas, entre elas um insignificante Sol.
Num dos planetas do Sistema Solar, a Terra, instalam fauna, flora e coroam tudo isso com o Ser Humano.
Quando a brincadeira está a atingir seu ponto melhor, a mãe grita lá do interior da casa:
- Crianças, venham lavar as mãos! O almoço está na mesa.
Os dois deusezinhos largam tudo e correm a matar a fome.
E lá ficamos nós, à mercê das intempéries.